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Xadrez de como a Agência Fitch ajudou no golpe do Master, por Luís Nassif

Xadrez de como a Agência Fitch ajudou no golpe do Master, por Luís Nassif

Publicado em 25/11/2025

Fonte: Portal GGN

Ela analisa governos, bancos, empresas e títulos, e publica notas (ratings) que indicam a probabilidade de calote ou problemas financeiros.

Peça 1 – quem é a agência Fitch

A Fitch é uma das três grandes agências de classificação de risco do mundo (junto com a Moody’s e a Standard & Poor’s). Ela funciona, basicamente, como uma avaliadora de crédito global: analisa governos, bancos, empresas e títulos, e publica notas (ratings) que indicam a probabilidade de calote ou problemas financeiros.

Suas notas afetam quanto custa captar dinheiro no mercado. Um exemplo simples:

  • Se a Fitch melhora o rating de um país ? juros caem, crédito fica mais barato.
  • Se ela rebaixa ? juros sobem, risco aumenta, investidores fogem.

No caso de empresas e bancos, um upgrade pode atrair fundos de pensão, seguradoras, ricos conservadores. Um downgrade pode secar a captação e até precipitar crises.

De quem é a Fitch?

Ela pertence ao grupo Fitch Group, controlado majoritariamente pela empresa americana Hearst Corporation (a mesma da revista Esquire, Cosmopolitan e canais como History Channel).

Onde ela atua

  • Sede: Nova York e Londres
  • Escritórios em mais de 30 países
  • Atua desde 1914 (mais de 110 anos de mercado)

As escalas de rating mais conhecidas

Detalhe importante

A Fitch trabalha com duas escalas distintas:

  1. Global (compara países entre si: Brasil, EUA, Índia etc.)
  2. Nacional (compara apenas emissores dentro do mesmo país)

Esse ponto é crucial e ajuda a explicar muitos casos, como o do Banco Master:

  • Na escala nacional brasileira, ele ganhou A- (bra). Aqui está a senha para o golpe.
  • Na escala global, era apenas B+ (alto risco).

Por que a Fitch é criticada?

Críticas ficaram famosas nas crises:

  • Subprime (2008) – títulos “lixo” tinham AAA.
  • Quebra do Silicon Valley Bank (2023) – downgrades só depois.
  • Banco Master (2025) – upgrade forte, depois alertas tardios.

Peça 2 – os critérios da Fitch

A. Capital e solvência

Mede: capacidade de absorver perdas.

B. Liquidez e funding (fonte de captação)

Pergunta-chave: de onde vem o dinheiro do banco?

A Fitch olha para:

  • % do funding vindo de depósitos estáveis vs. CDBs a varejo;
  • custo da captação;
  • volatilidade dos passivos;
  • dependência de grandes investidores institucionais.

Bancos médios brasileiros podem parecer sólidos, mesmo captando muito com CDBs de alto rendimento, porque a Fitch considera que o FGC mitiga parcialmente o risco de correntistas fugirem.

C. Modelo de negócios (risco do produto)

Avalia:

  • Diversificação (carteira não estar focada em um único tipo de crédito).
  • Concentração de clientes.
  • Exposição a consignado, crédito pessoal, cartão, PJ, governo etc.
  • Sustentabilidade do crescimento.

Em bancos que crescem rápido com consignado, crédito pessoal e CDBs agressivos, o risco pode demorar para aparecer no rating, porque o crescimento mascara o real nível de inadimplência líquida, segundo a Fitch.

D. Governança e controle acionário

Inclui:

  • transparência contábil,
  • histórico de sanções,
  • relação com reguladores,
  • “tone at the top” (conduta da direção),
  • quem controla o banco.

Bancos familiares ou controlados por poucos donos não são automaticamente mal avaliados. Se os controladores injetam capital, isso melhora rating — mesmo com riscos operacionais escondidos. Ora, capital injetado por controlador foi o primeiro ponto a despertar desconfianças no Banco Central.

E. Ambiente regulatório

No Brasil, pesa muito porque:

  • O Banco Central supervisiona agressivamente.
  • Existe FGC para depósito e CDB.

Isso gera uma convicção metodológica:

“Mesmo bancos médios têm proteção sistêmica e supervisão robusta.”

Essa crença eleva o rating nacional.

Peça 3 – como a Fitch favoreceu o Master

Para o rating nacional

Para o rating global

A aprovação foi apenas para uso interno do país.

Para uso externo,  o rating global, a nota foi “B+”. Para os investidores internacionais a Fitch apresentou o Master como de alto risco.

Em síntese

“Banco pequeno/médio, com modelo de crédito vulnerável, captação cara e sensível a choques, sem suporte externo, com governança limitada e dependente de condições macroeconômicas favoráveis.”

Isso é B+ global, mesmo quando era A-(bra) nacional.

Para o investidor global, o Master sempre foi “junk”.

Para o investidor brasileiro com FGC, ele parecia “grau de investimento”.

Essa dissonância permitiu que o banco captasse dinheiro público “seguro”, mesmo sendo arriscado em padrões internacionais.

Onde a Fitch ganhava

Do ponto de vista de negócio:

  • Um banco pequeno e irrelevante não dá muito dinheiro para a agência.
  • Um banco médio agressivo em captação e estruturação (caso Master)
    • contrata rating de emissor;
    • contrata rating para operações de funding e securitização;
    • compra direito de uso do rating em material de venda (“rated A-(bra) by Fitch”).

Em termos gerais de mercado (não específico do Master), relatórios públicos indicam que fees anuais de rating corporativo para bancos médios podem ir de algumas centenas de milhares de reais a alguns milhões por ano, dependendo:

  • do porte do banco,
  • da quantidade de ratings (global + nacional),
  • da complexidade (conglomerado, controladas etc.).

Não dá para cravar o valor exato que a Fitch recebeu do Master sem acesso a contrato ou vazamento, mas o tipo de receita é claro:

Fitch faturava tanto para dar o rating quanto para manter o rating que viabilizou a captação do Master.

Onde entra o conflito de interesse

O conflito clássico é:

Quem precisa de um rating alto para captar mais é justamente quem paga a agência.

No Master, a lógica é bem “explicável em manchete”:

  1. Banco Master quer crescer e captar pesado
    • Para entrar no radar de RPPS, estatais, fundos conservadores, precisa:
      • rating nacional forte (= A-(bra))
      • narrativa de solidez.
  2. Contrata e remunera a Fitch
    • para ser avaliado, reavaliado e manter o selo.
    • cada novo ciclo de rating e cada novo produto/estrutura é fee.
  3. Fitch eleva o rating nacional para A-(bra)
    • isso abre a porteira para dinheiro público que precisava de rating mínimo;
    • quanto mais o banco cresce, mais:
      • estrutura operações;
      • demanda rating para novos papéis;
      • releva a importância comercial da relação com a agência.
  4. Quando o castelo começa a cair, a sequência é típica:
    • primeiro “rating afirmado com outlook estável ou em observação”;
    • depois watch negativo e downgrade acelerado;
    • por fim, D (default) e “ratings retirados”.

Peça 4 – o papel do Banco Central

O BCB aprovou, em 13 de outubro de 2025, um aumento de capital de aproximadamente R$ 421 milhões para o Banco Master, elevando seu capital social para cerca de R$ 1,586 bilhões.

A mesma data traz aprovação de aporte de R$ 419 milhões na controlada do Master, a Will Financeira S.A. (Will Bank).

Não há na cobertura pública encontrada o “criterioso checklist” da superintendência do BCB contendo as condições específicas impostas, os documentos exigidos ou as cláusulas de monitoramento (por exemplo: “o controlador deverá apresentar plano de saneamento”, “não poderá emitir CDBs acima de X%”, “será feita auditoria trimestral”, etc.).

Sem acesso ao despacho completo, fica mais difícil saber quais condições o BCB exigiu para autorizar o aporte — se por exemplo impôs restrições à emissão de CDBs, à captação futura, à concentração de risco, etc.

Isso abre um “buraco investigativo”: como o banco conseguiu aprovação de capital e, cerca de um mês depois, foi decretada sua liquidação extrajudicial, há uma pergunta forte a levantar: o que o BCB viu vs. o que efetivamente existia?